sábado, 30 de julho de 2011

MINHAS RESENHAS POLÊMICAS SOBRE O LIVRO “OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO”

“O problema dessa antologia é que, na verdade, o que mais contou foram os nomes e não as obras. Até a polêmica fascista da proibição judicial da distribuição dos "Os Cem Melhores Contos..." para alunos da rede estadual reacendeu a hipocrisia envolvendo sexualidade, censura e educação.”

Finalista do Prêmio Jabuti, a antologia "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" (*615 páginas), organizada por Ítalo Moriconi, foi pautada por critérios não muito definidos, mas que poderíamos induzir que o que contou mesmo foi a fama dos seus autores, mesmo que muitos tenham alto nível e representem muito bem a nossa produção, ainda acho que a repetição de alguns autores demonstrou a falta de pesquisa na inclusão de outros menos famosos, mas valeu por apresentar uma galeria de textos (ficção curta) há muito esquecidos ou ainda não descobertos.

Contudo, me deliciei principalmente com os contos: “Dois corpos que caem”, de João Silvério Trevisan; “Um discurso sobre o método”, de Sérgio Sant’Anna; “Aqueles dois”, de Caio Fernando Abreu; “Aí pelas três da tarde”, de Raduan Nassar; “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector; “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca; “A maior ponte do mundo”, de Domingos Pellegrini; “A força humana”, de Rubem Fonseca; “O moço do saxofone”, de Lygia Fagundes Telles; “Viagem aos seios de Duília”, de Aníbal Machado; “Tangerine-Girl”, de Rachel de Queiroz; “Pai contra mãe”, de Machado de Assis; o divertidíssimo “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio; “A nova Califórnia”, do excelente Lima Barreto; “A caolha”, de Júlia Lopes de Almeida; “Negrinha”, de Monteiro Lobato; “Gaetaninho”, de Alcântara Machado; e “Baleia”, de Graciliano Ramos.

Como também, achei inadmissível a ausência de muitos outros autores que nem foram citados, como Nelson Rodrigues, Nelson Luiz de Carvalho, Ferréz, Drauzio Varella, Alessandro Buzo, Luiz Alberto Mendes, Sacolinha e Rodrigo Ciríaco. Mas fiz questão de resenha no COMENDO LIVROS todos os cem contos escolhidos para essa antologia. Porém, a recente polêmica-ignorante-burra proibição judicial da distribuição dos "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" para alunos da rede estadual de ensino reacendeu a hipocrisia envolvendo sexualidade, censura e educação. Até eu recebi alguns comentários ofensivos por ter escrito que gostei muito dos textos em questão.

Mas, para alguns educadores e escritores, a medida é arcaica e desnecessária. Na visão de alguns alunos e pais, parte do conteúdo da publicação é muito pesada para quem tem entre 11 e 17 anos. Os contos citados com "problemas" foram "Obscenidades para uma Dona de Casa", de Ignácio de Loyola Brandão, "Flor de Cerrado", de Maria Amélia Mello e "Olho", de Myriam Campello. Todos os três maravilhosos e inclusos numa polêmica fascista justamente por um povinho que não deve ter nem passado perto da capa do livro.

E como disse o meu amigo escritor baiano Moacir Eduão, que participou da antologia (que eu organizei) “Poemas de Mil Compassos” (2009): “Essa geração não pode ser chamada de geração, Elenilson. Precisa ser chamada de Gera Não. Ninguém comenta livros aqui, porque não lê acolá. Há umas raridades de leitores. Só que, mesmo leitores, parece que quando aparecem aqui é para ficar livre das intelectualidades. O pior é que "out line" também não encontramos muitas pessoas interessadas em conversar sobre livros. Com os investimentos em Educação e Cultura que temos, hoje, vamos continuar no ranking como um dos piores em interpretação de texto, em produção textual, e ganhando prêmios de melhor interpretação do "tchan tchan tchan", etc. Ler é conversar consigo mesmo, ter que interpretar a si, e isso é cansativo para os bichos-preguiça da contemporaneidade. Só tolero, ainda, por causa do poder que percebo da literatura infantil na garotada. Meu exercício para não perder a esperança está seguindo essa possibilidade: Ler para as crianças, para que elas não "morram" maduras e sem doce. É como regar. Estou pensando em escrever para as crianças. Escrever como elas, para que não se percam". Pois é. Agora, pelo menos leiam as minhas resenhas no COMENDO LIVROS – divididas em seis longas partes:

E confira também uma matéria sobre a “polêmica” com o conto do livro "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", distribuído pela Secretaria Estadual de Educação para alunos do 2º grau. O único conto identificado na reportagem foi o “Obscenidades para uma Dona de Casa", de Ignácio de Loyola Brandão, porque os outros, provavelmente, eles nem leram. “Um texto pornográfico e depreciativo”, disse uma inspetora de alunos de uma escola de Votorantim, São Paulo, avó de uma estudante de 17 anos. Embora não queira aparecer, a inspetora diz que a sociedade deve discutir a forma que o Estado está educando os jovens.

Acostumada ao ambiente escolar, ela diz que mesmo os alunos do antigo 3º colegial, entre 15 e 17 anos, não têm maturidade para compreender aquele tipo de leitura. O conto retrata uma mulher casada, que recebe cartas anônimas descrevendo atos sexuais. Mas para a inspetora, mesmo com toda informação que existe hoje, “é preciso analisar de que forma as coisas serão passadas. Além disso, há o constrangimento na sala de aula e o fato de que o livro não ficará restrito a esses alunos, podendo chegar às mãos dos mais jovens”. O que ninguém comenta é que além desse conto do Loyola, outros textos no livro provocam o leitor com termos que este conhece e sabe muito bem que existe, mas não quer ouvir. Penso que antes de ir atacando uma obra literária como se ela fosse uma ideia perigosa, os pais e os professores deveriam discutir a questão da sexualidade com os adolescentes, de forma mais aberta e crítica, como deveriam, também, discutir a miséria, a fome e a destruição do planeta. Lamentável. Observem a reação do povo:

fonte: Comendo Livros

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