Por Elenilson Nascimento
Incontáveis pessoas já me disseram que a imagem que o leitor tem de um escritor, em muitos casos, é bem maior do que o próprio escritor como pessoa. De alguma maneira o leitor pode se decepcionar com a figura que acabou criando com relação à figura real. Mas, por um lado, ainda a dúvida cultua-se como amiga íntima. Quantas pessoas já chegaram para mim e disse: “Mas é você mesmo o Elenilson?” E quantas outras nem fazem ideia do que eu ando fazendo ou deixando de fazer.
Como o poeta Roberto Piva – morto em março do ano passado – me ensinou e ainda ensina que sempre existe um ponto de partida. Mas nem sempre existe um ponto de chegada. E é exatamente assim que me sinto ao falar da poeta e atriz Eliane Silvestre. A minha lembrança “imaginária” que tenho dela é: eu e ela com centenas de corpos jovens nus atravessando o centro do PHoder de Brasília ao som de algum exu africano que é o jazz. De preferência Norah Jones, Betty Carter, Diana Krall e Ella Fitzgerald. Todas juntas no iPod de última geração que eu ainda não comprei. Porque me recuso a ouvir em fone de celular. Arcanjos nus de enxofre que bombardeiam nossos sonhos com letras, com livros e papeis nos transportando para o centro de uma Brasília que foi roteiro para o meu livro “Clandestinos” (2010) e sucessivamente, com o u sem olhares indiscretos, viajamos a esses mesmos pontos de mãos dadas.
O centro cinza dessa falsa Brasília, com os seus corruptos e corruptores no Congresso Nacional, com uma expressão de tédio, fica em silêncio. Um silêncio que só os poetas conseguem sorver, ainda que sendo silêncio, essa ingratidão e injustiça. Mas o mistério dos olhos e das lágrimas se confunde no acaso. Como foi no acaso que encontre a Silvestre. Linda e loura piscando na minha tela de computador. E os homens continuam nascendo e morrendo. E os poetas? O Piva logo saiu dessa para rir da cara da má imprensa sensacionalista, que se julga intelectual e politicamente correta. E a Silvestre já anda ocupando todos os espaços para gritar mais e escrever mais sobre o acaso e o descaso, a poesia e o tédio, o homem e o bicho. E se no caso a minha admiração platônica se tornar real, um dia, espero, eu juro: BEBO-TE DE CANUDINHO!
E prestes a assumir uma cadeira na Academia de Letras de Taguatinga, a Silvestre – leia uma entrevista bem legal que ela deu ao LC (06/04/10) – manda um sinal de fumaça para seus humildes servos e fãs:
"Elenilson, você é o principal culpado disso. Antes de você, do LITERATURA CLANDESTINA, do Poemas de Mil Compassos, terem aparecido na minha vida, eu ainda engatinhava na vontade de desengavetar poemas guardados durante anos. Havia participado sim de alguns concursos literários com êxito, mas a primeira crítica (linda!) a um poema meu veio de você, com o polêmico “Amor de Pica” (*leia-o aqui). Assisto diariamente na net a expressão verdadeira do ser humano Elenilson, que assume publicamente suas ideias, doam a quem doerem. Sei do seu olhar bastante seletivo, crítico ao extremo e, às vezes, me pergunto porque toquei seu coração? Tudo que faço seja no teatro, na literatura, no que for, você está ali para divulgar para me dar força. Você tem uma sensibilidade gritante que coloca lindamente na literatura e que no campo jornalístico cutuca a sociedade na sua hipocrisia e aponta o que sob a sua visão seria mais justo. Divergimos politicamente, mas isto nunca abalou o querer bem que tenho por você e que você tem por mim. Há momentos nos quais sua forma dura de se referir a pessoas chega a me dar raiva de ti. Mas supero e separo, porque sei que você é vasto demais para eu olhar só para um pedacinho, principalmente porque em outros tantos pedacinhos encontro alguém que escreveu "Canção para a minha cólera" e tantos outros poemas e textos riquíssimos que nos fazem sonhar, refletir, e encontro também um escritor generoso que sublima sua revolta na árdua batalha pessoal para viver de literatura formando um grande mutirão de escritores de talento, mas ainda desconhecidos. Muito obrigada por ter selecionado meu poema “Entre a Vida e a Morte” para participar da “Coleção Literatura Clandestina”, no livro “Poemas de Mil Compassos” (2009). Agradeço não só por mim, mas por tantos artistas brasileiros que embora não estejam na grande mídia, estão aí se expressando através da arte e você não deixa passar em branco". (Eliane Silvestre)
fotos: divulgação

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